01/06/2011
Introdução
Nas últimas 4 mensagens nós estamos pensando na pessoa que Deus usa na perspectiva de uma caracterísitica que pode ser descrita com uma palavra. Já falamos de caráter, perseverança e fidelidade. Vamos falar hoje de COMPROMISSO.
Quando olho para o cenário evangélico atual, vejo uma grande ausência de compromisso, Quando olho para a falta de trabalhadores no campo missionário, especialmente para as áreas difíceis do mundo — o mundo muçulmano, hindu e chinês — acredito que tudo se resume a uma falta de compromisso.
Onde estão os obreiros? onde estão os servos? onde estão as pessoas dispostas a levar a sério a vocação? onde estão os chamados? as pessoas de Deus que irão a estas áreas difíceis do mundo e agüentarão? Encontramos muito poucos que sequer respondem ao chamado ou ao desafio. Dentre os que respondem, vemos um grande número que salta fora depois de pouco tempo. Os que chegam a sair para o campo freqüentemente não retornam para lá depois do primeiro contrato. Por quê? Acredito que haja várias razões, porém um grande motivo é a falta de compromisso.
O compromisso é importante. O dicionário Aurélio define “comprometer” como: implicar, envolver, dar como garantia, empenhar, e “comprometer-se” como assumir responsabilidade, obrigar-se. Comprometo minha vida com Cristo Jesus. Junto minha vida à dele. Dou-lhe minha vida.
O mesmo ocorre no matrimônio. Por que há casamentos se quebrando? Sei que ouvimos falar freqüentemente de incompatibilidade, crueldade etc. Todas essas coisas com freqüência são uma camuflagem para o real culpado que deixa um matrimônio em pedaços — a falta de compromisso.
Quando comprometemos nossa vida com Deus, estamos submetidos à sua vontade. É na continuação que a palavra expressa a idéia de compromisso. Aos judeus que tinham crido nele, Jesus disse: “Se vocês obedecerem às minhas palavras, serão de fato meus seguidores” (Jo 8.31).
Há três palavras que pretendo apreciar nos próximos capítulos, as quais ajudam a definir essa palavra compromisso. As palavras são: determinação, responsabilidade e lealdade.
Entretanto, precisamos refletir sobre algumas das razões por que rompemos nosso compromisso.
“NÃO ERA EXATAMENTE O QUE EU PENSAVA QUE FOSSE”
Essa é uma desculpa que ouço com muita freqüência da parte de pessoas que quebram um compromisso. Talvez não tenhamos avaliado o custo. “Quando Jesus e os discípulos iam pelo caminho, um homem disse a Jesus: — Eu seguirei o senhor para qualquer lugar.
Jesus respondeu:
As raposas têm as suas covas, e os pássaros, os seus ninhos, Mas o Filho do Homem não tem onde descansar” (Lc 9.57,58).
Quando Jesus apresentou as condições de discipulado, não temos mais notícia desses que queriam ser seus seguidores.
Quando fui diretor do Doulos (o segundo navio da Operação Mobilização — OM), tínhamos o que chamávamos de “formulário de compromisso”, para ser assinado pelas pessoas que vinham trabalhar conosco.
Antes que assinassem o formulário, nós lhes expúnhamos como era a vida no navio e o que esperávamos delas, bem como o que elas teriam de fazer. Queríamos obter a certeza de que elas entenderam com o que estavam se envolvendo.
Em seguida, queríamos que assinassem o formulário porque sabíamos que, depois que a novidade passasse, procurariam pôr desculpas para escapar do compromisso. Faz parte do treinamento das pessoas jovens que saem conosco ensinar-lhes a importância do compromisso. Ensinando essa lição, revestia-se de importância que terminassem o que começaram.
NÃO TEMOS UMA MENTALIDADE FAVORÁVEL AO SOFRIMENTO
“Por isso, assim como Cristo sofreu no seu corpo, vocês também devem estar prontos para sofrer como ele sofreu, Porque aquele que sofre no corpo deixa de ser dominado pelo pecado” (1 Pe 4.1).
Isso é parte de nossa armadura e é tão essencial para nós como a armadura sobre a qual lemos em Efésios 6. Por não termos essa disposição ou mentalidade é que constatamos que o inimigo penetra e nos derrota justamente quando não queremos sofrer. Em decorrência, fazemos o possível para quebrar nosso compromisso.
Uma jovem aderiu a um de nossos navios durante dois anos. Havia sido muito ativa em sua igreja e tinha feito um trabalho responsável. Enquanto estava no navio, teve de passar um bom tempo lavando pratos.
Todas as noites, no quarto, ela se lamentava das mãos de lavadora de pratos. Reclamava que não entrara no navio para lavar pratos etc.
Uma noite, quando se queixava a Deus a respeito de suas mãos, de como estavam vermelhas e machucadas, e pensava como poderia escapar do compromisso, o Senhor falou com ela: “Olhe para as minhas mãos…”
Foi esse um momento de virada na vida dela. Ela deu-se conta de como o Senhor tinha sofrido em favor dela. Armou-se da mentalidade correta e agüentou. Tornou-se um de nossos membros de equipe da linha de frente, que têm a responsabilidade de ir adiante do navio e organizar a programação. É um trabalho que implica muita responsabilidade. É um trabalho para pessoas comprometidas.
IDÉIAS ERRADAS DO QUE SIGNIFICA SEGUIR A CRISTO
Parece que pensamos que, ao seguirmos a Cristo, não teremos nenhum problema. Não compreendemos como o Senhor constrói o caráter em nós. Não é assim que não teremos problemas, porque os temos. Na realidade, provavelmente passamos por mais problemas (porque Satanás é contra nós), mas temos uma solução para nossos problemas. É isso que faz a diferença.
Há uma tendência para pensar que, se seguimos a Cristo e as coisas são duras e não se resolvem, isso não pode ser de Deus. É essa forma de pensamento que conduz a muitas idéias errôneas sobre o discipulado.
É nesse ponto que adotamos a “doutrina da prosperidade”, que afirma que Deus quer que sejamos ricos, bem como a muitas outras doutrinas sedutoras.
Como interpretamos Hebreus 11:35-38? “Pela fé mulheres receberam de volta os seus mortos, que ressuscitaram. Alguns foram torturados até a morte; eles recusaram a liberdade a fim de ressuscitarem para uma vida melhor. Alguns foram humilhados e surrados; e outros, amarrados e jogados na prisão. Outros foram apedrejados; outros, serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles!”
O que dizer sobre as pessoas mencionadas aqui? Será que não tiveram fé? Não puderam crer em Deus para sua libertação? Sim, elas tiveram fé. Na realidade, é provável que tiveram mais fé. Aqui constatamos o que é verdadeira fé bíblica. A fé bíblica nos conduz através dos problemas. É isso que o compromisso implica.
“Vocês já têm tudo o que precisam! Já são ricos! Vocês já se tornaram reis, e nós, não! Que bom se fossem reis de verdade, para que pudéssemos reinar com vocês! Porque me parece que Deus deu a nós, os apóstolos, o último lugar. Somos como as pessoas condenadas a morrer publicamente, como espetáculo para o mundo inteiro, tanto para os anjos como para as criaturas humanas. Por causa de Cristo nós somos loucos, mas vocês são sábios por estarem unidos com ele. Nós somos fracos, e vocês, fortes; somos desprezados, e vocês, respeitados. Até agora temos sofrido fome e sede. Temos nos vestido com trapos, temos sido surrados e não temos morada certa. Temos nos cansado de trabalhar para nos sustentar. Quando somos amaldiçoados, nós abençoamos. Quando somos perseguidos, agüentamos com paciência. Quando nos insultam, respondemos com palavras delicadas. Somos considerados como lixo, e até agora nos tratam como a sujeira deste mundo (1 Co 4.8-13).
“Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores” (1 Co 4.16, ARA).
Nesse texto Paulo nos está dando uma idéia do que significa seguir a Cristo, Depois de descrever tudo pelo que ele e os outros apóstolos passaram, ele tem a audácia de dizer, no v. 16, que insiste para que os coríntios o imitem.
Que idéia errada na atualidade acerca do que significa seguir a Cristo! No modo de pensar de nosso mundo ocidental, e disseminando-se por toda a América Latina, vigora a idéia de que Deus nos abençoou. E de fato nos abençoou, O ensino resultante é que somos espirituais e a recompensa é a bênção material. Boa parte disso é extraída do Antigo Testamento. Mas o que faremos com esses versículos do Novo Testamento?
Que dizer de nossos irmãos e irmãs em algumas das regiões difíceis do mundo, como o Sudão, onde atualmente estão sendo martirizados por amor a Cristo? Uzbequistão, Laos, Muritania, Iêmen, Afeganistão, Madivas, Somália, Arabia Saudita, Irã e Coréia do Norte… São tirados das casas e lançados no deserto sem comida, água ou proteção das intempéries. São estuprados e vendidos como escravos…
Não… Temos de compreender o que significa seguir a Cristo. Agora é o tempo de sofrer. Mais tarde haveremos de reinar, mas agora, como ao apóstolo Paulo, cabe-nos completar os sofrimentos de Cristo. Cristo sofreu e morreu na cruz. Agora ele reina. É assim que ocorre no presente com a igreja. Sofremos agora, mas mais tarde reinaremos.
FALTA DE ACORDO
Alguns de nós somos muito opiniosos. Nós temos nossas mentes prontas. Temos nossas próprias idéias. Não há nenhuma flexibilidade. Parece que não entendemos que outras pessoas possam ter idéias diferentes, opiniões diferentes, que podem ser tão boas ou talvez até melhores que as nossas.
No casamento, quando duas pessoas têm compromisso uma com a outra, deve haver um acordo saudável. Admito que há coisas nas quais não podemos contemporizar. Não podemos ceder quando está em questão o evangelho. Mas o que ocorre é que a tradição entra em cena e nós nos tornamos extremamente inflexíveis.
Com muita freqüência entramos numa situação com a idéia de que não mudaremos de opinião. Se a situação não mudar conforme meu agrado, rompo meu compromisso. Em decorrência, a maioria das situações não é do nosso agrado, de forma que o compromisso é rompido.
Precisamos ver suscitadas pessoas que saibam para onde vão, e como chegar lá, mas que também tenham a flexibilidade de caráter que lhes permita trabalhar com outros com quem não estejam concordes.
“MEU COMPROMISSO É COM CRISTO E SOMENTE COM ELE, NÃO COM UMA ORGANIZAÇÃO OU GRUPO DE PESSOAS”
Quando fui diretor do navio da OM, havia pessoas que vieram a mim e afirmaram exatamente isso. Sentiam-se muito espirituais. Exclamavam: “Estou seguindo a Cristo, não a um ser humano.”
Essas pessoas eram capazes de romper facilmente seu compromisso, Em qualquer organização há certas regras que devem ser seguidas se quisermos conviver em harmonia.
Todavia, essa espécie de argumentação é uma falácia de pessoas que não gostam de cumprir regras. As dimensões vertical e a horizontal formam uma unidade. Se um crente não está comprometido com seus irmãos e irmãs no Senhor de um modo visível e prático, duvido seriamente de seu compromisso com Deus.
Novamente depreendemos isso da Bíblia.
“Cristo é como um corpo que tem muitas partes. E essas partes, ainda que sejam muitas, formam um só corpo” (1 Co 12.12).
“Sabemos que já passamos da morte para a vida e sabemos isso porque amamos os nossos irmãos. Quem não ama ainda está morto” (1 Jo 3.14).
“É assim que sabemos o que é o amor: Cristo deu a sua vida por nós. Por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos. Se alguém é rico e vê o seu Irmão em necessidade, mas fecha o seu coração para ele, como pode afirmar que de fato ama a Deus?
Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações” (1Jo 3.16-18).
“Se alguém diz: ‘Eu amo Deus’ e odeia o seu irmão, é mentiroso. Porque ninguém pode amar Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê (1 Jo 4.20).
De acordo com a Bíblia, quando estou comprometido com Cristo, há algumas outras coisas com as quais também tenho compromisso.
1) “Cristo é como um corpo, o qual tem muitas partes. E todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um só corpo” (1 Co 12.12). Estou comprometido com a igreja, o corpo de Cristo. Isso se concretiza na realidade da igreja local em que me encontro no momento.
2) “Portanto., vão a todos os povos do mundo e falem que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho mandado. E lembrem de que eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28.18-20). Estou comprometido com a evangelização mundial. Estou comprometido com que o reino do céu se alastre pela face deste mundo. Estou engajado na expansão do reinado de Cristo.
3) Ao ter compromisso com Cristo tenho compromisso com o ensino dele, sobre o qual lemos em Mateus 5.7, no texto conhecido como o sermão do Monte. Estou comprometido com amar meus irmãos no corpo de Cristo com a oração e com a sua vontade e propósito.
Queira Deus fazer de nós homens e mulheres de compromisso.
Bibliografia: Frank Dietz